Manifesto de uma Bruxa Moderna

Há vinte anos formei-me em Direito. Aprendi a linguagem das leis, dos códigos, dos tribunais e das instituições. Dediquei minha vida ao estudo da justiça, da responsabilidade e da ética. Mas muito antes de conhecer as leis dos homens, conheci outra lei, mais antiga e silenciosa: a de que nenhuma sociedade será verdadeiramente justa enquanto exigir que mulheres renunciem à própria voz para serem aceitas.

Sou uma praticante da bruxaria moderna. Não da bruxaria inventada pelo medo, pelas fogueiras da intolerância ou pelas caricaturas que durante séculos serviram para controlar mulheres livres. Sou parte de uma tradição que reverencia a natureza, a liberdade de consciência, o conhecimento, a responsabilidade pelos próprios atos e o profundo respeito por todas as formas de vida. Minha espiritualidade nunca foi incompatível com o Direito; ao contrário, foi ela que me ensinou que toda ação produz consequências e que nenhum poder sustentado pela mentira permanece intacto para sempre.

Ainda assim, ao longo da minha trajetória profissional, fui inúmeras vezes perseguida. Não por incompetência. Não por falta de preparo. Tampouco por ausência de ética. Fui perseguida porque escolhi permanecer livre. Porque jamais aceitei a manipulação como ferramenta de trabalho, o machismo como regra de convivência, a mentira como estratégia ou o silêncio como preço da permanência. Em diferentes lugares onde exerci minhas funções, como advogada, empresária ou gestora, descobri que há pessoas profundamente incomodadas por mulheres que não podem ser controladas.

Chamaram de arrogância aquilo que sempre foi autonomia. Chamaram de rebeldia aquilo que sempre foi dignidade. Chamaram de ameaça aquilo que nunca passou de autenticidade. A história conhece bem esse mecanismo. Durante séculos, mulheres sábias foram perseguidas não porque representassem o mal, mas porque representavam conhecimento, independência e coragem. Tentaram apagar suas vozes, destruir seus nomes e transformar seu legado em superstição. No entanto, nenhuma fogueira conseguiu consumir uma ideia cuja hora havia chegado.

Não carrego desejo de vingança. A vingança pertence aos que acreditam que a violência corrige aquilo que apenas a consciência pode transformar. Eu acredito em outra força. Acredito que cada pessoa inevitavelmente encontrará, no próprio caminho, as consequências das escolhas que fez. O tempo revela aquilo que a manipulação tenta esconder, e a verdade possui uma estranha capacidade de sobreviver às narrativas construídas contra ela. Não preciso desejar o mal de quem me perseguiu. A vida, por si mesma, é uma professora suficientemente rigorosa.

Continuarei caminhando exatamente como sempre caminhei: estudando, trabalhando, construindo, defendendo aquilo que considero justo e permanecendo fiel aos meus princípios. Ser bruxa, para mim, nunca significou dominar os outros. Significa dominar a si mesma. Significa cultivar discernimento em vez de medo, conhecimento em vez de ignorância, autonomia em vez de submissão. Significa reconhecer que o sagrado não exige intermediários para existir e que a liberdade espiritual é um direito tão legítimo quanto qualquer outra forma de liberdade.

Vivemos um tempo de transformação. Estruturas antigas começam a ruir porque foram erguidas sobre o controle, o medo e a desigualdade. A era das máscaras se aproxima do fim. A autenticidade tornou-se revolucionária, e mulheres que durante séculos foram ensinadas a diminuir sua própria luz decidiram ocupar, finalmente, o espaço que sempre lhes pertenceu. Não porque receberam permissão, mas porque compreenderam que nunca precisaram dela.

Esta é a era das mulheres que estudam, lideram, criam, curam, constroem e escolhem seu próprio destino. É a era das que recusam o papel de coadjuvantes em suas próprias histórias. É a era das que transformam dor em consciência e perseguição em força. É a era das bruxas — não das figuras criadas pelo imaginário do medo, mas das mulheres que pensam, questionam, conhecem, resistem e permanecem inteiras.

Não espero compreensão de todos. Nunca esperei. Espero apenas que a liberdade que reivindico para mim seja reconhecida como o mesmo direito que sustenta qualquer sociedade verdadeiramente democrática: o direito de existir sem perseguição, de professar minha espiritualidade sem vergonha, de exercer minha profissão sem precisar ocultar quem sou e de permanecer fiel à minha consciência.

Porque toda vez que uma mulher escolhe viver em verdade, uma antiga fogueira perde sua última chama. E toda vez que uma bruxa deixa de esconder sua voz, o mundo recorda que nenhuma força é maior do que uma mulher que conhece a si mesma, honra seus princípios e se recusa a voltar para a sombra.

Que venham os novos tempos. Nós já estamos aqui.